Em mais de 40 anos de jornalismo convivi com muitas autoridades. Também fui comandado por inúmeros chefes em mais de uma dezena de empregos. Depois de tanto tempo, hoje sou um gestor, responsável por um grupo de pessoas de quem preciso estabelecer e cobrar metas, controlar horários e atribuir frequência.
Pela primeira vez tenho a responsabilidade de conduzir estagiários, função que em outros empregos cumpria espontaneamente. É uma atividade gratificante. Permite passar parte da minha experiência, além de aprender a cada dia. Na questão tecnológica sou dependente da gurizada que me rodeia e que, em vários temas, tem visão diversa da minha.
Na reunião de apresentação ao grupo enfatizei que aprendi muito com ”chefes ruins”. Ao longo de tantas experiências perdi a conta de superiores que não tinham a mínima noção de princípios como liderança, solidariedade, paciência, bom senso.
Ao assessorar autoridades do três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – aprendi muito. Um dos defeitos recorrentes das chefias é a resistência em conviver com assessores competentes e, ao mesmo tempo, sinceros. Principalmente em política, mas também em outros ambientes, é raro encontrar líderes aptos a dialogar com subordinados sinceros. Esta dificuldade, quando não é aprendida, quase sempre resulta em carreiras abreviadas pela proliferação de bajuladores.
Os conhecidos ”puxa-sacos” estão em toda parte. A única preocupação desta gente é manter o emprego, “se dar bem”, fazer o que for preciso para garantir o espaço e o contracheque. Nem que para isso, seja preciso “puxar o tapete” de colegas de trabalho.
Sinceridade é um atributo que, a exemplo de qualquer medicamento, precisa ser usado com parcimônia. O emprego exige a observância de regras básicas de convivência, como escolher hora e local para “dizer as verdades”. Do contrário, observa-se o que popularmente é chamado como ”sincericídio”, ou seja: a verdade proferida fora de hora, causando constrangimento e por vezes colocando em xeque a autoridade de algum superior.
É difícil admitir que a hipocrisia viabiliza a convivência social. Afinal, desde pequenos somos ensinados a falar a verdade. Até a chegada daquela tia chata que nossas mães tanto criticam.
Gilberto Jasper
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