Ayrton dos Anjos, Patineti, Chiquinho, meu amigo de todos os tempos e mais um dia. Que chorem os céus de Porto Alegre nessa cerimônia do adeus. Onde ele esteve, esparramou cantorias e riso, Chiquinho era sua própria lenda.
Seu lugar em minha mesa, casa, parceiro de tantos veraneios. Posso dizer estar ao seu lado foi sempre um tempo onde o imprevisível e o inusitado aconteceriam a qualquer momento.
Suas relações eram álacres, bisonhas e, acima de tudo, definitivas. Não sei se por esse vasto mundo de Deus exista alguém que tenha se tornado íntimo, profundamente amigo dos amores que teve ao longo da vida.
Padecimentos, os teve, como todos os mortais. Mas não servia mate à tristeza, a alegria de viver era um compromisso permanente.
Teve vários desenhos pessoais, ora bigode de espadachim, cabeleira bicolor, o modo de vestir era inspirado nele mesmo, estravagante e de bom gosto.
Viaja para o outro da lado da vida quando seu projeto de levar o Grande Encontro, festa maior da MPG, para as cidades do interior gaúcho se concretiza. Seu filho Caetano e a amada parceira Berê levam avante, abrem as cortinas, deste grande feito que Patineti nos lega.
Lembrarei sempre do Chiquinho como alguém que conferia sentido à vida através do riso, da amizade. Sua presença era sempre uma dádiva de alegria e encantamento.
As paredes do cotidiano eram estreitas demais para a exuberância de seu temperamento realizador. Também dentro dos estreitos espaços da morte ele não caberá.
Onde ele estava, explodia festa a qualquer momento. Frasista, descobridor de talentos, aproximando pessoas, tornou-se o grande regente coordenador dos compositores, principalmente os de índole regional. Por isso, a noticia de sua despedida correu campos e cidades qual o boitatá, chegando como um susto, um soluço a milhares de pessoas.
Sentiremos muita saudades dele. Mas tenho certeza de que ele não permitiria que em seu louvor tombasse sobre alguém a sombria nuvem da tristeza. Seguirei contando sua façanhas, citando suas irreverentes frases, honrando aquela vida valiosa em seu tempo e permanente em nossa memória.
Suas cinzas tombarão sobre violões e gaitas. As mãos hão de se beijar na hora do aplauso. Os microfones irão reverberar o gemido do vento.
E o nosso adeus terá aquela certeza de que assim viveu e assim se despediu um ser humano abençoado pela graça indizível do mais exuberante companheirismo do afeto mais verdadeiro.
Luiz Coronel