Buenas!
Porto Alegre é uma cidade grande, grandiosa, grandiloquente! Mais ainda agora, quando completa, oficialmente, 250 anos de idade. Não é toda dama que chega a idade tão avantajada! E não só completa a melhor idade, chega modernizada e também mantendo o estilo vintage. Com isso, agrada os paladares mais diversos, aprimorada na textura e no sabor como um bom vinho que amadureceu por um tempo, diria eu, exagerado, em barris de carvalho.
Localizada ao sul do continente chamado Brasil, ela não é uma cidade qualquer, é muito diferente das outras capitais brasileiras, recheada de idiossincrasias… Tal cidade já foi chamada de “mal entendida” pelo Luis Fernando, o Verissimo. Em uma crônica antológica, ele lista uma série de definições equivocadas que tornam a cidade toda especial.
Vou citar algumas das definições do autor porto-alegrense, porém, isso não isenta minhas dezenas de leitores – no caso, um milionésimo dos leitores do LFV – a buscar o livro que contém esse texto emblemático, caso não o tenham lido ainda ou precisem refrescar a memória: “Traçando Porto Alegre”, publicado em 1994. Sua leitura poderá servir como uma homenagem não só ao escritor que morou em diversas cidades belíssimas mundo afora, porém, sempre voltou ao seu lar afetivo, mas também à aniversariante.
A metrópole com ares interioranos desperta paixões muito por seus encantos um tanto desencontrados, mas únicos, como alguns que me são caros e foram lembrados por LFV. Um dos mais emblemáticos é A rua da praia, pois é uma rua que não tem praia, aliás, nem esse nome ela tem. Chama-se rua dos Andradas, em homenagem aos irmãos que foram os grandes responsáveis intelectuais pela independência do Brasil de Portugal, dentre outras coisas.
Nessa rua fica o hotel Majestic, que não é hotel faz tempo e que foi transformado em uma casa de cultura rosa como só ela soube ser, que enaltece outro símbolo da cidade, o poeta Mário Quintana, que ali morou por muitos anos, local de onde cantou em verso os encantos da cidade e sua alegre melancolia.
A tal da rua da praia acaba quase no rio Guaíba que foi, por muitos anos, alvo de polêmica e relativo abandono. Depois de muita pesquisa, estudiosos definiram que não é nem rio, nem estuário, é, na verdade, um lago. Porém, quando os primeiros casais de imigrantes açorianos aqui chegaram, não atentaram para esse detalhe, afinal, foram aqui abandonados em meio à guerra guaranítica. Ao invés de lamentar – o que devem ter feito em um fado primordial – fizeram dela a sua terra.
Às margens do rio – que não é rio -, no final da rua da praia – que não tem praia nem se chama praia – fica a famosa usina do Gasômetro, que não é uma usina de gás há décadas. Após um período de abandono, foi transformada em uma verdadeira usina cultural, tão importante, que sua silhueta hoje representa a cidade que está de aniversário. No momento, aguarda a conclusão de uma reforma que já dura quase cinco anos, mas que, segundo os gestores atuais, irá liberar o espaço ao público ainda este ano.
Aliás, foram estas minhas primeiras paixões quando aqui aportei há quase três décadas e era “um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”, como disse Belchior e como boa parte dos que aqui habitam. Vindo das missões, adotei a capital e seu centro histórico, onde passei a morae, de onde fiz porto para minhas navegações Brasil e mundo afora. A primeira rua da cidade ainda pulsa de vida e história, com prédios que poderiam causar inveja ao Rio antigo ou algumas alamedas parisienses, locais que muito inspiraram nossa antiga capital.
Palmilhei tantas e tantas vezes essa vizinhança que acabei chamo a casa de cultura de meu jardim, ela que enaltece o poeta que também veio do interior e igualmente adotou a capital como sua, eternizada em versos do poema “O MAPA”, em que diz: “sinto uma dor infinita das ruas de Porto Alegre em que jamais passarei”. Os eventos artísticos na usina às margens do rio que não é rio, foi um camarote em que pude, centenas de vezes, apreciar o pôr do sol mais cativante que há notícia mundo afora – perdoem a ênfase, estrangeiros, ela se faz necessária, apesar da consciência de que não passa de arroubo bairrista.
Como em todo aniversário em que as pessoas rasgam elogios ao festejado, poderia ficar aqui a enaltecer todas as recauchutagens pelas quais ela passou, como as ciclovias, a nova orla, o embarcadero, etc. Mas não posso esquecer a demora para que elas fossem concluídas, as obras inacabadas da Copa (sic), seus buracos eternamente revigorados, seus moradores de rua, dentre outras tantas mazelas.
Nessa semana comemorativa, no entanto, penso que podemos tão-somente abrir uma garrafa desse tinto complexo que é a capital gaúcha – que ficou tanto tempo estagnada no carvalho e, finalmente, amadureceu seu corpo -, sorver seu aveludado aroma outonal, apreciar o tanino adstringente que adquiriu após tanto tempo maturando, cultuar seu terroir nativo e embriagar-se com as histórias frutadas de seus grandes homens e feitos.
Feliz aniversário, Porto Alegre.