83 anos deste jornal
Quem diria que A PLATEIA já comemorou 83 anos de existência e circulação, sendo apenas um jornal do interior do Estado e de uma região de baixa densidade populacional. Não é fácil imaginar a saga e a coragem, para não dizer aventura, de todos aqueles que se impuseram a missão de conduzir uma empresa jornalística.
A partir de Carlos Varela em 1937 que criou o folheto com a programação do cinema local, quantos passaram pela direção deste matutino e com que sofrimentos e agruras para manter diariamente na rua as páginas impressas que eles desejavam que fossem o espelho fiel e sem subterfúgios do cotidiano da cidade. Quando se pensa na ideia de tempo, ou seja, em mais de oito décadas, é preciso lembrar que o jornal é feito e refeito diariamente.
Ele se esvai no dia seguinte; o da semana passada é tão velho quanto o do ano passado. Tudo nele se renova e deve ser por isso que a redação do jornal, sempre borbulhenta, atrai e fascina. O jornal não permite a repetição da notícia, por melhor que ela seja; é preciso que haja um empenho de todos para que diariamente tudo volte a ser recriado. Este é o mundo dinâmico do jornal que encanta.
Nos idos dos anos 50 a redação de A PLATEIA funcionava no prédio da Sociedade Italiana, na Rua Rivadávia Correa. Quando tocava a sirena na redação, alertando para a chegada de uma notícia importante por telegrama, eu dava um jeito de sair correndo para averiguar e descobrir a novidade que estava sendo anunciada.
Conseguir ler a notícia que estava afixada num quadro ao lado de fora do prédio, era o de menos. O bom mesmo da notícia era ouvir os comentários das pessoas que também tinham acorrido para se informar. É claro que eu já tirava as minhas conclusões, mas as opiniões dos demais eram importantes, porque eles interpretavam conforme o seu interesse ou a sua capacidade de assimilação. Eu vibrava com as discussões que surgiam naquela roda.
Normalmente as pessoas mal se conheciam, estavam ali impulsionadas pela curiosidade da nova e, se esta era de cunho político, o debate pegava fogo. Quando a notícia envolvia personalidades da UDN, PSD ou PTB, como a morte de Getúlio, o que mais me interessava era olhar as feições dos debatedores casuais e os ouvir, ver os seus gestos e contrações faciais e imaginar o que deveria significar aquela mensagem para eles.
O mundo da notícia cresceu e o jornal acompanhou e se mantém atualizado. Do tempo da linotipo que compunha a linha em barras de chumbo, passou-se para a computação gráfica e da impressora plana houve um salto para o offset e para a rotativa. Os clichês em zinco fixados em uma madeira foram substituídos pelas fotos digitais.
No final da década de 60 o fotógrafo João David tinha que secar os filmes revelados no calor de um fogareiro Primus e em certa ocasião incendiou o laboratório porque o filme de celulose se inflamou e as chamas se espalharam. Nos dias de hoje o fotógrafo Marcelo Pinto se vale de um drone para a sua atividade.
Não há mais necessidade de sirena no lado de fora do prédio para avisar a notícia recente, porque a Internet se encarregou de levá-la para todos os quadrantes, silenciosamente.