PUBLICIDADE fael 12.03

Especial Pampeiro

Os reféns do medo

Moradores falaram sobre os crimes e o temor de novas ações criminosas. Confira também uma palavra e avaliação do Comando da Brigada Militar e do Poder Executivo Municipal

Na última semana, a Vila Pampeiro deixou o clima de aparente paz e sossego para se tornar um palco de horror. Uma comunidade com, aproximadamente, 75 habitantes, incluindo idosos, jovens e crianças, se tornou alvo da maldade e barbárie praticada por dois adolescentes, um deles com apenas 14 anos e outro de 16 anos de idade. Uma dupla já conhecida na região e que se divertia praticando crimes, principalmente furtando e roubando os habitantes mais frágeis e solitários, provocando o pavor na comunidade.
Depois de cometer vários crimes contra os habitantes daquela região, a dupla acabou se tornando autora de dois homicídios contra idosos, um de 76 anos e outro de 90 anos de idade. Segundo depoimentos dos menores perante as autoridades policiais, na última quarta-feira(6), a ideia inicial não era propriamente matar, mas amedrontar e roubar as vítimas, as mortes teriam sido consequências; contudo, segundo relato de moradores daquela localidade, este resultado era um caminho já traçado e um destino certo para os idosos e para os criminosos.

A Vila Pampeiro 

Localizada a 45km do Centro de Livramento, a Vila Pampeiro é composta por cerca de 75 habitantes, possui rede elétrica instalada e um poço do DAE em funcionamento. O sistema de saúde da família funciona bem e o serviço é bastante elogiado pela comunidade. A Vila possui a escola estadual Professor Pedro Comas e também recebe o ensino pré-escolar da rede municipal de educação. As aulas da pré-escola acontecem no antigo prédio da subprefeitura de Pampeiro. O local também já sediou uma antiga cadeia na região.
O acesso à Vila pode ser feito pela BR 158 para quem viaja sentido Rosário do Sul, logo após o Cerro de Palomas à esquerda, o trajeto na BR é bem sinalizado. A estrada apresenta condições razoáveis de trafegabilidade e exige manutenção periódica.
A Vila é formada na sua maioria por famílias e aposentados que buscaram na localidade um refúgio e tranquilidade longe dos grandes centros, aspecto que mudou com a chegada da criminalidade no campo. A Vila Pampeiro já foi conhecida também como Vila Silveira e Vila Curteirinha. Atualmente todos vivem como uma grande família e se ajudam mutuamente em qualquer emergência.

Segurança

A localidade não possui Posto da Brigada Militar, para qualquer emergência ou pedido de ajuda os moradores precisam acionar o 190 e aguardar a chegada de uma viatura da Brigada Militar de Santana do Livramento. Segundo os populares, nos últimos anos os casos de furto, roubo e abigeato cresceram consideravelmente. Com o passar do tempo, se tornou cada vez mais comum o furto de animais na localidade, como ovelhas e gado; o arrombamento em residências também cresceu e começou a assustar a comunidade que trocou a fechadura simples das portas por correntes, grades e cadeados.
Alguns moradores resolveram, por conta própria, combater a criminalidade e instalaram câmeras de vigilância para monitorar a ação dos bandidos no campo e nas proximidades das suas residências.
“Não temos segurança, não temos estrada, estamos abandonados” disse um dos moradores que vive há anos na Vila Pampeiro. Desapontados, os moradores disseram que a Vila se tornou também um refúgio para a “bandidagem” da cidade e afirmam que muitos jovens comentem crimes e usam a Vila como esconderijo.

Monitoramento comunitário

A comunidade adotou um sistema de monitoramento, onde cada morador se torna um vigilante. Atentos aos sinais e alertas, além de códigos pré-combinados, os moradores sempre se comunicam para verificar se existe algo errado, diante das respostas, a Brigada Militar é chamada pelo 190 para atender a comunidade. 

O contato com as vítimas

Com relação à dupla detida no decorrer da semana, acusados de dois homicídios, um dos moradores afirmou que eles usavam inicialmente uma casa na floresta como residência. A casa teria incendiado e então estes jovens e seus familiares se dispersaram entre o interior da Vila Pampeiro e a zona urbana de Livramento. Com o passar do tempo, eles começaram a aproximação com os idosos assassinados e tiveram ajuda da genitora de um deles que fingia trabalhar como doméstica. Segundo relatos de pessoas próximas às vítimas, o relacionamento atingiria um grau romântico e colocava os idosos numa condição de vulnerabilidade. Os criminosos se aproximavam das vítimas de maneira tranquila e depois usavam a força e opressão para conseguir o que queriam.
Segundo outro morador, certos criminosos já são velhos conhecidos da comunidade e quando eles são avistados nas redondezas, os populares não se afastam de suas casas. Além da dupla presa na semana, outros criminosos também aterrorizam a localidade e impõem medo e insegurança para quem vive no campo.
Com receio de represálias, a comunidade não quis fornecer nomes e acredita que as prisões desta semana irão apenas apaziguar o atual cenário de crimes na Vila Pampeiro e região.
Há aproximadamente 20 anos a Vila possuía um Posto da Brigada Militar e um destacamento que fazia a segurança na região, mas que atualmente está desativada. O desejo de boa parte da comunidade é ter a presença diária da força policial até que a criminalidade seja totalmente extinta da rotina da comunidade.

O segundo crime

A Brigada Militar e Polícia Civil percorreram a Vila Pampeiro e arredores em busca da dupla, mas as guarnições retornaram para a cidade logo a noite. Nesse ínterim, a dupla já tinha buscado refúgio na casa do senhor Natalício Soares, de 90 anos de idade, na região de Palomas. Os jovens comeram, beberam e passaram a noite de terça para quarta-feira, na madrugada, decidiram roubar o idoso e levar o carro da vítima. A ação teria se configurado num sequestro e latrocínio.
Durante a ação dos jovens, eles agrediram o senhor Natalício e, imaginando que ele estava morto, o idoso foi jogado do carro perto da Ponte dos Japoneses e depois socorrido por populares. Era 5h30min da madrugada do dia 6 de dezembro quando uma câmara de vigilância de uma das casas da Vila Pampeiro registrou o momento em que a dupla passou na localidade com o carro da segunda vítima. O carro percorreu algumas ruas da Vila e seguia sempre em velocidade baixa, o que assustou os moradores que logo imaginavam que a dupla procurava uma terceira vítima.
No início da tarde de quarta-feira, a comunidade fazia o sepultamento do corpo do senhor Hilário no cemitério da Vila quando receberam a informação da Polícia Civil sobre a prisão da dupla. Os menores foram conduzidos e apresentados na Delegacia de Pronto Atendimento (DPPA) ainda na tarde de quarta-feira (6). No amanhecer do dia 07 (quinta) a segunda vítima de 90 anos de idade que estava internada na Santa Casa veio a óbito.

Com a palavra o Comando da BrigadaMilitar em  Livramento

Tenente Coronel Adilomar Jacson Silva, comandante do 2º Regimento de Polícia Montada – 2º RPMon.
“Antigamente, vários distritos no interior dos municípios e, principalmente, no município de Livramento que tem uma extensão territorial muito grande, tinham postos da Brigada em que alguns policiais moravam nesses postos. Isso permitia que a Brigada tivesse uma capilaridade maior. Com o passar dos anos e com a diminuição de nosso efetivo, foram sendo fechados esses postos. Hoje não existe nenhum posto no interior do município de Sant’Ana do Livramento. Essas comunidades que moram e trabalham no interior de nosso município são atendidas pela Patrulha Rural na parte preventiva e quando temos alguma ocorrência se desloca a viatura que está mais próxima ou que está disponível”.
“É humanamente impossível que se consiga com duas ou três equipes dar conta de atuar preventivamente e fazer um policiamento realmente como seria o ideal com o efetivo que dispomos hoje”.
“Hoje, os baixos índices criminais de Sant’Ana do Livramento se devem muito mais a uma questão de conduta, de firmeza e de propósitos de nossa população do que propriamente também pela presença policial em todos os cantos da cidade. O que ocorreu ali foi um fato isolado, está esclarecido. São duas pessoas com desvio de conduta que acabaram abalando aquela comunidade e a Brigada Militar vai continuar atuando não só ali como em todos os locais do interior com a Patrulha Rural”.

O primeiro crime e a prisão

Os moradores se mobilizaram e ajudaram na perseguição e elucidação dos crimes. Um dos vizinhos da primeira vítima conta que os jovens se aproximavam dos idosos e usavam a casa das vítimas como suas próprias residências. Depois de assaltar e cometer outros delitos na cidade, a dupla voltava para a Vila e se provaleciam da impotência e fragilidade dos idosos. Sozinhos, as vítimas acabavam cedendo aos jovens e criavam um laço de certa dependência e medo.
No dia do primeiro crime (05 de dezembro) a dupla de jovens de 14 e 16 anos estava na casa do idoso Hilário Pereira de Souza e a morte teria acontecido por volta das 10h30min da manhã depois de um desentendimento com o idoso. A briga teria envolvido um possível xingamento que desencadeou o comportamento violento nos adolescentes. O idoso recebeu vários golpes na cabeça e no corpo e a arma utilizada no crime seria um pedaço de madeira. Quem encontrou o corpo da vítima foi um morador que voltava do campo. Ele avistou o corpo do idoso Hilário de 76 anos na frente da sua casa e chamou os vizinhos e a Brigada Militar. No local havia bastante sangue. Antes que o crime fosse descoberto, a dupla ainda parou num “bolicho” (pequeno comércio) próximo e pegou comida e um refrigerante para fazer um lanche na mata.
À tarde, um dos moradores disse que avistou os criminosos tomando banho de riacho nas proximidades de uma ponte caída perto dos trilhos. O local fica a poucos quilômetros da Vila Pampeiro. Depois deste fato, eles teriam seguido em direção a Palomas, para o endereço da segunda vítima.

Com a palavra o Poder Executivo

A reportagem obteve uma entrevista com a vice-prefeita, Mari Machado, a respeito da Vila Pampeiro e dos serviços prestados pela administração municipal na localidade.
“A comunidade de Pampeiro será bastante beneficiada com a aprovação no Plano Diretor que está em debate neste momento da Rota Turística Ferradura dos Vinhedos. Com essa iniciativa e as boas perspectivas de empreendimentos naquela região, como o Parque de Águas Termais Amsterlan e as várias vinícolas da região acreditamos na ampliação das possibilidades de emprego. Além disso, temos trabalhado pela implantação do Trem Turístico, sendo que a empresa que hoje faz o trajeto Bento Gonçalves/ Garibaldi já apresentou projeto na empresa Rumo, que substituiu a ALL na linha ferroviária. A possibilidade bem concreta de instalação do Free Shop em Livramento, segundo as notícias de Brasília, abrem também uma perspectiva do retorno do engarrafamento do vinho no município, gerando mais empregos que irão beneficiar a região”.
“Nosso atendimento na zona rural das áreas da Saúde e Assistência Social tem ocorrido na forma de mutirão e essa região foi atendida. Temos uma extensa área rural e um cronograma de atendimento para chegar a todas as regiões”.
Com respeito ao prédio da Subprefeitura de Pampeiro que hoje é utilizado para aulas da pré-escola da rede municipal de ensino, a vice-prefeita comentou: “Por hora, as dificuldades financeiras nos exigem que concentremos esforços e recursos na área urbana e na melhoria das estradas rurais, não havendo ainda possibilidade de reativação das subprefeituras do município, embora seja um desejo do governo”.
Sobre a violência que tem chegado de forma assustadora na comunidade, ela disse: “Quanto à questão da violência, lamentamos os fatos ocorridos recentemente na comunidade de Pampeiro. A segurança pública não é responsabilidade do município, mas temos buscado manter a iluminação pública sempre em funcionamento, incluindo essa localidade, para dar condições de segurança aos munícipes. Solidarizamo-nos com as famílias que ali residem, preocupados com a elevação da violência de uma forma geral no Estado e no país”.

Um pedido de socorro

A comunidade pede justiça para os dois casos envolvendo os idosos e ainda temem a ação de criminosos na localidade. Afastados por 45 km, os moradores vivem uma rotina de medo e preocupação. “São dias calmos e tranquilos, e depois vem o medo de alguma coisa ruim”, disse um dos vizinhos da primeira vítima.
A casa do senhor Hilário está fechada e sendo cuidada por um amigo. Considerado um homem tranquilo e bondoso, os populares afirmam que Hilário era uma pessoa de bem e que nunca teria se envolvido em coisas erradas. “Era querido pela comunidade, mas a gente sabia que isso podia acontecer, aqueles meninos eram perigosos e sempre abusavam dele, mas ele não revidava, a gente tinha medo que um dia eles pudessem fazer muito mal a ele, e isto aconteceu”, disse um morador antigo da região.
A grande preocupação da comunidade é com a sazonalidade dos crimes, pois, segundo alguns líderes da comunidade, embora os fatos isolados desta semana, muitos jovens saem da cidade para cometer crimes na Vila, para fazer tocaias nas estradas e cometer assaltos e roubos, enquanto outros criminosos fixam residência na região e praticam crimes nos arredores e na cidade, recorrendo à distância da Vila para o Centro da cidade como “quartel do crime” para permanecerem na impunidade.
Em conversa com a comunidade, ninguém pretende deixar a vida no campo ou abandonar a Vila Pampeiro, os moradores acreditam que podem contribuir com a produção agrícola para a cidade e esperam das autoridades uma solução para a violência no campo.
Outros querem apenas o direito de ter de volta a vida pacífica e livre de crimes.

Por: Administrador - 09/12/2017 às 0:00

 

Deixe seu comentário