Jornal A Plateia - Livramento/RS. Notícia - Quando se cala um cantor

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Quando se cala um cantor

Em clima de grande emoção, Santana do Livramento se despediu, na manhã de domingo, de um dos seus filhos mais ilustres: Nelson Cardoso, “O Gateiro dos Canudos” que faleceu aos 75 anos

Ainda era madrugada de sábado quando as primeiras informações sobre o falecimento do cantor, compositor e gaiteiro Nelson Cardoso começaram a ser divulgadas pelas rádios da cidade. Por volta das 3h:45m do dia 23 de setembro do corrente ano se apagou o luzeiro cantor da fronteira, com seu jeito de campeiro e sotaque inconfundível, Nelson Cardoso deixou a vida para entrar, definitivamente, na história musical do Rio Grande do Sul como um dos músicos de “terrunha” identidade.
O “Gaiteiro dos Canudos” faleceu na Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre, onde estava internado em estado grave, após lutar por seis anos contra o câncer. A notícia foi recebida em Livramento com profundo pesar e comoção de toda a comunidade e seus familiares. Nelson Cardoso tinha 75 anos de idade, e deixa três filhas: Daniela, Tatiana, e Débora, quatro netos, a esposa Élida além de nove irmãos.

Chegada do corpo e o velório

Na bonita tarde de primavera, um grande número de pessoas, entre parentes, amigos e familiares se reuniram na entrada da cidade à espera do corpo do cantor que chegou por volta das 19 horas da noite de sábado (23). Um piquete de cavaleiros do Fogão Negrinho do Pastoreio, entidade tradicionalista que o gaiteiro foi um dos fundadores, também aguardava para fazer a sua escolta até o prédio da Prefeitura Municipal aonde aconteceu seu velório. Já era noite, quando aos poucos o som dos cascos quebram o silêncio da rua Rivadávia Correia por onde o cortejo prosseguia.
Em frente à prefeitura uma multidão se aglomerou com a chegada do carro fúnebre. Nelson Cardoso, um homem do campo e acostumado pelos galpões foi velado no Salão Nobre do Palácio Moisés Viana que ficou completamente lotado pelos seus amigos, familiares e fãs. Em cima do caixão, o chapéu preto de abas largas que acompanhou o gaiteiro nos muitos bailes pelo Rio Grande afora, mais embaixo, a bandeira do seu Negrinho do Pastoreio que lhe deu tanto orgulho nos desfiles de 20 de Setembro, e por último como mortalha sobre o peito, a bandeira do Rio Grande do Sul honrando a partida de um autêntico gaúcho.

Sepultamento e o último adeus

Já era manhã de domingo e os pássaros cantavam cantigas de primavera na Praça General Osório, quando o corpo do Gaiteiro dos Canudos foi retirado do prédio da Prefeitura e em cortejo seguiu para a rua Duque de Caxias onde duas fileiras de cavaleiros formavam um corredor por entre os olhares tristes e os rostos cabisbaixos conduziam o seu caixão que foi levado até um caminhão dos Bombeiros para ser conduzido, em carro aberto, até o
Cemitério Público Municipal.
Uma multidão acompanhou o cortejo até a Avenida da Saudade, seguido pelos cavaleiros do Fogão Negrinho do Pastoreio que prestavam a sua homenagem ao gaiteiro que nunca fez distinção entre as pessoas que frequentavam a entidade. 
Antes do derradeiro adeus ao Gaiteiro dos Canudos, Luiz Cardoso, seu irmão que por muitas vezes esteve dividindo o palco juntamente com Nelson protagonizou uma cena inesquecível que simplifica o verdadeiro sentido do amor entre a família. De guitarra em punho e lágrimas nos olhos, Luiz cantou uma das músicas mais conhecidos do gaiteiro, “Meu Vale Quatro”, enquanto a multidão emocionada, cantava e aplaudia incessantemente a execução da canção entoada pela última vez ainda com o corpo presente.     
Ao final de uma rápida cerimônia, Nelson Cardoso foi sepultado no túmulo de número 1452, do Cemitério Público Municipal sobre aplausos e sussurros de suas composições mais conhecidas que marcaram a sua trajetória na música regional do Rio Grande do Sul.

“Uma ave deixou seu bando”

Nelson Cardoso não irá deixar saudade apenas para os seus familiares, mas também para os seus fãs e amigos com quem dividiu seus mais de 60 anos de músicas. O velho gaiteiro foi referência para tantos músicos que ao longo dos  anos cresceram ouvindo suas composições. Um deles é o cantor e compositor Adair de Freitas, com quem Nelson trabalhou na época do Conjunto os Vaqueanos e durante o seu velório esteve todo o tempo do lado do velho amigo.
Outro músico santanense que foi se despedir do Gaiteiro dos Canudos foi Volmir Coelho, que contou para a reportagem do Jornal A Plateia da participação fundamental que o “Tio Nelson” como ele carinhosame chama o amigo teve na sua história musical. “Devo muito a ele, se hoje eu canto música gaúcha, o Tio Nelson tem uma grande contribuição nisso. Quando eu era mais novo fui morar em Canoas, na grande Porto Alegre, já conhecia o Nelson aqui de Livramento. Mas lá, eu trabalhava em uma fábrica de botijão de gás e um dia ao chegar em casa vi um fusca com placa de Livramento em frente do local onde morava. Entrei na sala e vi o Tio Nelson, sentado de chapéu e pala. Ele disse “Vim te buscar guri, teu lugar não é aqui” então ele me chamou pra tocar com ele e foi o responsável por me trazer de voltar para Livramento. Devo muito a ele. Hoje ele é uma ave que deixou o seu bando” disse o cantor com os olhos marejados.

Um Canto de Amor à sua Terra A Biografia de um cantor fronteiriço

Nelson Machado Cardoso, nasceu no ano de 1942, filho de Argemiro Simões Moreira e Natália Machado Cardoso, nasceu em uma família de músicos e de pessoas ligadas ao campo e às lides campeiras. Desde cedo teve contato com o cavalo e forjou seu jeito vendo e ouvindo homens campeiros nas rodas de mate ao redor de um fogo de chão. Foi a sua origem campeira que certamente mais tarde viria timbrar as suas composições carregadas de sentimentalismo, apego ao chão e à sua gente.
Foi ali mesmo na “Unha de Gato” e “Pitangueira”, no 7º Distrito de Livramento, terra de gente valente, bons cavalos e carreiras concorridas, bailes animados e famosos por várias léguas, que Nelson Cardoso começou a se interessar pelo sotaque da gaita.
Mas foi certa feita em uma carreira que o guri Nelson Cardoso, com 15 anos de idade, começou a tocar, aproveitando às gaitas que os gaiteiros deixavam encostadas nas árvores na folga da lida. Seus primeiros professores foram peões de estância que entre um trabalho e outro foram lhe mostrando os primeiros acordes. Como conta o seu irmão Luiz Cardoso em um dos episódios do programa Cantores de Bota e Bombacha da TV A Plateia. “Ele começou a tocar com eles. Tinha o Chicão da Butija, que era um gaiteiro antigo, que mostrou as primeiras músicas para o Nelson. Depois com muito sacrifício, a nossa mãe conseguiu juntar um trocados e comprou uma gaita para ele, que lhe acompanhou a vida inteira” contou o músico.  
A primeira apresentação em público ocorreu em 1959. Quando Nelson se escreveu em um concurso de gaita em Livramento, promovido por Ademar dos Santos Moura durante a Semana Farroupilha e obteve o 1º lugar em gaita ponto. Ali começa definitivamente a sua carreira na música regional gaúcha. Alguns anos mais tarde, em 1968, juntamente com Heber Artigas (O Gaúcho da Fronteira) e o músico Adair de Freitas  fundaram o Conjunto de Baile “Os Vaqueanos”.

Os Vaqueanos

Segundo texto publicado pelo radialista Antônio Carlos Valente em sua rede social, a formação do conjunto Os Vaqueanos era a seguinte: Nelson Cardoso, Adair de Freitas, Acir da Rosa, João Minéia(tocava chocalho), João Conceição de Freitas, Gaúcho da Fronteira e Dirnei Paz, o popular “Unha” na bateria. Mais tarde, com a saída do violonista e guitarrista Acir da Rosa, assumiu no violão e na guitarra Moacir de Souza, e nos últimos anos do conjunto entrou Luiz Eduardo Cardoso, irmão do Nelson, como violonista e guitarrista. O conjunto fez diversas apresentações pelo Rio Grande, entre elas a gravação do programa Show Do Gordo, na TV Gaúcha (hoje RBS TV), e que era apresentado pelo comunicador Ivan Castro. Além de participações Brasil afora como a gravação do programa Alô Brasil: Aquele Abraço, da Rede Globo de Televisão, e que era o programa mais famoso da televisão brasileira na época.

 Carreira Solo

O Gaiteiro dos Canudos

Após o encerramento das atividades com “Os Vaqueanos” Nelson Cardoso decidiu continuar em uma carreira solo, e no ano de 1982 gravou seu primeiro LP chamado “Meu Jeito” que segundo fontes ligadas àquela época vendeu todas as suas cópias prensadas. E foi nesse período também, que Nelson Cardoso começou a participar do recém criado movimento dos festivais nativistas onde esteve presente na 1ª e 2ª edição da Gauderiada da Canção Gaúcha, e em muitos outros sendo, inclusive, premiado em muitos deles em parceria com seu sobrinho Lauro Simões. Já no ano de 1984, Nelson Cardoso lançou o LP “Cordeona, Ponteio e Canto”. No ano de 1988, “Resistência” seguido por “Canto Gateiro” em 1990. Já em CD no ano de 1996 ele lançou “Pampa e Fronteira” e em 2002 gravou em parceria com seu grande amigo João de Almeida Neto, o CD Marca de Casco, ainda no mesmo ano lançou o disco “Cavaleira da Cordeona” e em 2008 Canção da Volta. Seu último registro fonográfico foi no ano de 2014 quando lançou o CD Pampeano. As composições que ficaram mais conhecidas em sua voz foram “Meu Vale Quatro”, “Chinoca Menina Flor”, “História, Canto e Fronteira”, “ Santana , Querência e Saudade” “ Cardoseando”, “ Amor e Recuerdos”, “ Chamamé de Fronteira”,  “ Maragatos e Chimangos”, “ Baio Encerado”, “ Polca do Caverá”, “ Errando a Volta pra Estância”, “ Paisano”.

A sua origem de campo, Nelson Cardoso trouxe sempre em sua cordeona e em sua música, um homem campeiro que gostava de animar a gauchada por onde quer que chegasse. Foi justamente em uma destas festas, de uma certa Semana Farroupilha, que Nelson Cardoso foi à uma entidade tradicionalista do município, acompanhado por peões de estância que foram impedidos de entrar no recinto e participar das atividades. Foi, então, que o Nelson se retirou por não concordar com a situação e, juntamente com seu sobrinho Lauro Correa Simões e seus companheiros fundaram o Fogão Negrinho do Pastoreio onde patrões e peões sempre tiveram a mesma importância.

Homenagens em vida

Tio Nelson sempre se emocionava quando subia num palco para cantar para a sua gente. E foi na sua terra que recebeu todas as homenagens em vida. No festival Um Canto Para Martín Fierro, um dos mais importantes do estado, ele participou diversas vezes sempre recebendo reconhecimento do seu povo. Foi no mesmo Martín Fierro que ele ganhou um troféu em sua homenagem. Neste ano de  2017, dois dias antes de completar 75 anos, Nelson Cardoso recebeu a maior honraria do Parlamento Gaúcho por intermédio do deputado estadual Edu Olivera, a Medalha Mérito Farroupilha conferida às personalidades que se destacaram no cumprimento de suas funções sociais e culturais.

Por: Matias Moura - matiasmoura@jornalaplateia.com - 26/09/2017 às 10:04

 

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