Polícia

“A sociedade despertou para o problema d e nossas fronteiras, para os crimes rurais”

Aos 53 anos, o porto-alegrense Kleber Rodrigues Goulart, Coronel da Brigada Militar, deixa o Comando Regional de Polícia Ostensiva da Fronteira Oeste (CRPO-FO), em solenidade nesta quarta-feira de manhã, para assumir a Corregedoria-Geral da Brigada Militar em Porto Alegre no dia 11 de setembro. O Coronel Goulart teve, em Livramento, sede do CRPO-FO, sua primeira experiência de interior e, sobretudo, de região de fronteira. No histórico tem passagem pelo 1º Batalhão da Polícia Militar de Porto Alegre, a mais antiga unidade operacional do Rio Grande do Sul, ativa desde 1892, além de ter comandado o Batalhão de Operações Especiais da BM com sede na capital. Como comandante de unidade policial militar, atuou nas manifestações de 2012 e, especialmente, 2013 em Porto Alegre, momento de forte contestação do aumento das tarifas de ônibus do transporte coletivo urbano naquela cidade e que culminaram com diversas e grandes manifestações às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. O Coronel Goulart se graduou em direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no ano 2000, sem contar sua passagem, obviamente, pela Academia de Polícia da Brigada Militar do Estado. Na segunda-feira (4), o Coronel recebeu o Jornal A Plateia para entrevista, que pode ser conferida na sequência.

A Plateia: Que Fronteira o senhor encontrou quando chegou aqui?

Coronel Goulart: “A região de Fronteira é uma área muito diferenciada pelas longas distâncias que temos entre os municípios; diferenciada pela própria proximidade com os outros países – como a permeabilidade que existe, visto que temos fronteira seca. Mesmo a fronteira que tem obstáculo natural como o Rio Uruguai, mesmo assim é uma fronteira muito permeável, seja por ponte ou até mesmo de barco se atravessa e os controles e a fiscalização são muito baixos. Logo que cheguei, a Fronteira tinha esse status quo. O que tem de diferente na Fronteira da qual hoje me despeço é que me parece haver mais integração. Como um todo, a sociedade despertou para o problema de nossas fronteiras, para os crimes rurais, como o abigeato. Tudo hoje que está acontecendo na região metropolitana, ou nas regiões metropolitanas do país como um todo, a origem se dá na permeabilidade de nossas fronteiras. São por elas que entram as drogas no país, são pelas fronteiras que entram as armas para dentro do país. O tráfico de pessoas, inclusive, acontece via fronteiras. Então o crime internacional, transnacional, acontece facilmente por nossas fronteiras. Parece a mim que o poder público e a sociedade também passam a dar outra importância para as questões de Fronteira. Prevejo, nos próximos meses, para os próximos anos, uma preocupação e um incremento por parte da união, dos estados, no apoio aos municípios para fazer esse enfrentamento, visando um controle melhor de nossas fronteiras; mais em razão do crime que está acontecendo nas regiões metropolitanas, do que propriamente dito na questão do crime transfronteiriço, aquele pequeno crime que acontece no dia a dia das fronteiras.

AP: O senhor falou no despertar da sociedade. Nesse contexto, sempre falamos na integração, não apenas entre a sociedade e as forças de segurança, mas sobretudo entre as forças de segurança, o que se destaca ser aqui sempre algo diferente. Qual sua visão sobre esse trabalho conjunto?

Coronel Goulart: “Há duas semanas fizemos um seminário aqui na região. Livramento foi a sede desse seminário (de caráter) internacional, porque convidamos a policia uruguaia a participar. Esse seminário fazia essa provocação, de exatamente trazer órgãos e instituições que lidam com essa problemática da fronteira e cada uma delas apresentar sua visão do problema, de como enfrentavam os problemas e naquilo que achavam que seria melhor se atuássemos de forma integrada ou se havia uma predisposição do órgão em trabalhar de forma integrada. O problema foi unânime de todos os órgãos, inclusive da policia uruguaia. Todos temos o mesmo problema: o crime é organizado. Ele perpassa a Fronteira, ele não se dá pelas questões de fronteira. Claro, nós órgãos e instituições de Estado, não podemos ir além da Fronteira. Precisamos de legislação para atuar além-fronteiras, precisamos de entendimento entre nações para essa atuação, temos de respeitar a soberania dos países. Então sem integração esse trabalho fica muito mais difícil. O que se depreendeu do seminário foi essa necessidade e um querer muito por parte dos órgãos de trabalhar não só de forma integrada, coordenada e simultânea, mas trabalhar junto e principalmente integrar as inteligências policiais”.

AP: Temos a questão peculiar dessa integração entre as forças de segurança na Fronteira, mas também temos os problemas por se estar em uma região de fronteira. Como a Brigada Militar pode atuar, ou melhor, seguir atuando para diminuir esses problemas? Como se pode atuar com uma eficácia cada vez maior?

Coronel Goulart: “Está dentro da estratégia do Comando da Brigada Militar ser mais protagonista nessa faixa de fronteira, assumindo um protagonismo enquanto polícia ostensiva, voltando a ter uma missão como polícia ostensiva de fronteira, ou seja, atuar mais explicitamente e ostensivamente na faixa de fronteira, coibindo os crimes transnacionais e os crimes transfronteiriços. Sabemos que a competência original é da Polícia Federal. Por sua vez, as Forças Armadas têm uma competência subsidiária, mas mesmo assim por parte da polícia ostensiva não há uma ostensividade de nenhuma polícia nessa faixa. A Brigada entende que pode fazer esse protagonismo na questão de polícia ostensiva de fronteira, atuando de uma maneira mais explícita e incisiva, não só em operações integradas, mas atuando na parte de prevenção, atuando mais focado na prevenção de polícia de fronteira. Estamos montando alguns grupos de trabalho interno, com unidades de fronteira da Brigada, como grupos de trabalho integrados com outros órgãos e instituições.

AP: Patrulha Rural: foi sua primeira experiência, portanto, junto às patrulhas de forma mais próxima? Como vê a atuação dela, o que falta e o que já tem?

Coronel Goulart: “A Patrulha Rural é fundamental, porque é ela que leva a segurança pública até a zona rural. Fora disso, não temos nenhuma outra maneira de levar essa segurança pública até a área rural. No momento em que fazemos nossa repressão aos crimes rurais, quando a gente faz nossa prevenção aos crimes rurais, quando contatamos as propriedades rurais, quando realizamos reuniões comunitárias rurais, a presença de nossas patrulhas rurais fazendo barreiras policiais ou simplesmente fazendo contato com as pessoas, com os povoados das áreas rurais, isso (tudo) leva à prevenção ao campo. Uma coisa que, por vezes, temos deficiência. Então gostaria que tivéssemos capacidade de fazer mais isso, levando mais segurança ao campo. Infelizmente nós ainda estamos muito restritos nessa área, em razão de recursos que, por vezes, faltam para levar mais segurança ao campo. Todas as unidades do comando regional ainda mantém as patrulhas rurais, que vão em uma periodicidade que gostaríamos que fosse maior, mas infelizmente não conseguimos. Mas, sim, elas ainda são executadas e fundamentais. Não fosse hoje as patrulhas rurais, a situação rural, no campo, estaria muito pior”.

AP: Qual a contribuição que deixa para Sant’Ana do Livramento e a região da Fronteira?

Coronel Goulart: “A contribuição que posso deixar à região de Livramento, em si, é que a comunidade, a sociedade se organize cada vez mais, exigindo do poder público aquilo que lhe é devido: a percepção de mais segurança, a área rural tendo a segurança. Vejo que, quando uma comunidade se organiza, ela tem maior capacidade de atingir suas necessidades. Seria essa a principal recomendação que poderia deixar. No mais, agradecer à comunidade de Sant’Ana do Livramento pela acolhida. Cheguei como um homem da capital e hoje me atrevo a dizer que sou um pouco fronteiriço também, face à maneira como fui tratado, a maneira como fui recebido e consegui me integrar com as forças vivas aqui da comunidade”.

Por: redacao@jornalaplateia.com - 06/09/2017 às 10:26

 

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