Jornal A Plateia - Livramento/RS. Notícia - “Aqui é uma terra de oportunidades sim”

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“Aqui é uma terra de oportunidades sim”

“Desenvolvimento” é a temática deste fim de semana no “Jogada de Letra”, que apresenta entrevista com Carlos Eduardo Grisolia da Rosa (Calico), nascido em 15 de janeiro de 1965, em Santana do Livramento. Formado em economia, em 1986, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, e depois em direito pela Urcamp, em Livramento, Calico é atualmente secretário de Desenvolvimento e Turismo do Governo do prefeito Solimar Charopen, o Ico (PDT).

A Plateia: Como se desenvolve o local sabendo que essa esfera está ligada a outras como a estadual, a federal e a global?

Carlos Eduardo Grisolia: Quando te referes a questão local e a questão para além de fronteiras, me refiro a questões endógenas e exógenas. Dentro dessa divisão tem os aspectos das finanças públicas propriamente ditas, que aí passa pelos municípios, estados e união. Vivemos uma crise quase que generalizada nas finanças públicas e Livramento não está dissociada desse contexto, cada qual tem suas peculiaridades. Nós aqui temos um passivo que necessita atenção e responsabilidade para administrá-lo e ir pagando e amortizando, o que remonta a quase 70 milhões de reais, além do passivo do Sisprem. Por que faço essa introdução? Para dizer que o poder público municipal e isso também se replica no estado, que mal está conseguindo pagar os salários e na união não é diferente, a capacidade de investimento nessa conjuntura é zero, ou seja, o Poder Público em muitos momentos da história do país e do mundo é propulsor do desenvolvimento, é protagonista do desenvolvimento, com obras de infraestrutura, através da oferta de crédito, e nesse momento isso não está existindo e compromete o protagonismo do poder público nesse segmento do desenvolvimento, mas concomitantemente a isso penso que a medida que estimularmos e fortalecermos e ampliarmos parcerias com o poder privado, isso cria um ambiente favorável ao desenvolvimento. Muitas vezes as pessoas podem até não ter a dimensão e a compreensão do quanto é importante essa aproximação, o diálogo, as pessoas sentarem-se em torno de uma mesa, mesmo cada um com seu olhar e transformar isso em uma riqueza. Penso que essa é uma riqueza que temos em Livramento e perpassa pela matriz produtiva nos mais diversos segmentos. Apesar das dificuldades do poder público, a medida que estabelecermos parcerias, intensificarmos o diálogo, termos criatividade e através desses segmentos para os quais nossa região tem vocação natural, penso que temos uma perspectiva sim, a médio prazo, muito boa.

AP: Quanto à participação do Poder Público junto ao setor privado. Sabemos que na segunda metade do Século 20, quando o capitalismo teve um “boom”, o Estado teve maior presença ainda. O Estado apoiando o investimento privado é uma demonstração de que essa lógica se mantém? Que não é porque está em crise que fica quieto?

Calico: Penso que aos moldes como está formatado o país hoje, dificilmente vai existir o desenvolvimento genuíno sem a presença de ambos os atores, seja de uma forma ou de outra. Mesmo um Estado em crise, ele impulsiona, através de uma legislação. O poder público na concepção moderna, para além de ideologias, tem que procurar ser o máximo eficiente possível, dentro da estrutura anacrônica que está aí. O poder público ainda é muito pesado, não tem agilidade, mas penso que tem de ser facilitador. Por isso que, quando falo na criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento, passa por isso: temos que obviamente obedecer a norma legal, de forma transparente, mas temos que incentivar, estimular o empreendedorismo, seja da dimensão que for. Mesmo em crise, o poder público é estratégico no desenvolvimento. Dentro da realidade local, faço referência à Sala do Investidor, que está sob a coordenação da secretária-geral de Governo, que é a vice-prefeita Mari. Passou lá até agora, em termos de volumes de projetos, se efetivamente todos vierem a ser consolidados, algo em torno de 145 milhões de reais em apenas seis meses. Isso praticamente é um orçamento do município. São projetos que passaram pela Sala do Investidor e estão em fase de tramitação, alguns mais avançados que outros, e se consolidados darão essa cifra e algo em torno de 1.700 empregos. Apesar das dificuldades do Poder Público, como propulsor direto de investimento, estou com muito entusiasmo, essa sinergia que está acontecendo é muito boa. O empresariado está se sentindo mais seguro e, em função disso, ele age mais e reage positivamente a esse estímulo.

AP: Qual o espaço/tamanho do turismo para o desenvolvimento de Livramento? Ou, até que ponto o desenvolvimento depende ou passa pelo turismo? Que relação se estabelece aí?

Calico: Penso que o turismo pode potencializar nosso desenvolvimento, que não passa tão somente pelo turismo. E aí entra aquela dicotomia em que se questiona o que fica dos free-shops de Rivera, o que não ficou. Sempre fui um defensor dos free-shops de Rivera também, porque nos últimos 15 anos certamente passaram algumas centenas de milhões de dólares por Rivera. Tenho certeza de que entre 15 a 20% ficou em Livramento, tanto é que a rede hoteleira de Livramento não dobrou nos últimos dez anos por acaso. Dobrou por esse turismo de compra e que sempre vejo com muito respeito, embora outros vejam como demérito. Temos que tratar esse fluxo turístico como uma oportunidade e aí que se abrem as possibilidades e um novo cenário através de um turismo aqui a partir desse fluxo. Onde entra o óleo-turismo, que vai entrar as águas termais, que entra o eno-turismo. Esses atores têm também que ter essa compreensão. Objetivamente digo: turismo pode, vai e deve potencializar o nosso desenvolvimento, por meio do aumento da rede hoteleira, gastronômica. Postos de serviço, por exemplo, aumentaram significativamente nos últimos anos em função desse fluxo de turismo. À medida que já foram muito bons os últimos 15 anos em alguns setores pelo movimento dos Free-shops de Rivera, à medida que tivermos os nossos Free-shops aqui também a tendência é melhorar muito mais. Somado a isso, do outro lado tem o cassino e do lado de cá vai ter a água termal. Vamos nos consolidar sim como um polo turístico do Uruguai e do Brasil. Vejo o turismo potencializando o desenvolvimento e de forma bastante significativa.

AP: Como se desenvolve Livamento tendo a cidade Rivera ao lado, como funciona o aspecto binacional para o desenvolvimento? Há projetos a serem tocados apenas com os recursos locais ou há projetos que se têm de pensar binacionalmente? Como é desenvolver o local no contexto binacional de Fronteira?

Calico: Vejo com muito otimismo, apesar de ser realista, porque, felizmente, o Governo Municipal de Livramento do Ico e da Mari e a Intendencia de Rivera, do Marne Osório, eles têm a clareza sobre isso, da importância de se agir e planejar junto ações em sua grande maioria e no que for possível. O apelo maior aqui é a binacionalidade. O que seduz o turista é a questão da Fronteira, então o que temos de bom aqui e o que eles têm de bom lá se fortalece, não se divide isso. Temos de usar ainda mais positivamente essa Lei federal que nos define como ‘cidades símbolo da integração do Mercosul’. Em agenda do Prefeito e da Vice em Montevidéu o diretor do BID no Uruguai disse que a única experiência de Mercosul que deu certo foi Rivera-Livramento/Livramento-Rivera. Essas diferenças nossas vejo como uma oportunidade, como um fator a mais para vendermos nossa Fronteira.

AP: Onde entra a comunidade como um todo e de que forma ela pode colaborar para o desenvolvimento, sendo que, muitas vezes, a pessoa não faz parte da política ou não tem os recursos financeiros de porte e parceiros para alavancar um projeto?

Calico: A principal colaboração da comunidade é dela com ela mesma, e isso não custa nada em termos financeiros. Basta uma atitude de acreditar e isso não precisa ser um grande empresário nem ter milhões de reais para investimento. O dono de uma banca de cachorro-quente, se tiver o feeling do negócio, ele vai ganhar dinheiro com isso, vai entender isso. Não podemos esquecer parceiros como o Senac, o Sebrae, que são atores importantes e qualificam a mão-de-obra. A maior colaboração que a comunidade pode dar é com ela mesma, acreditando. Aqui é uma terra de oportunidades sim. É tão rica que tem os mais diversos segmentos. Temos terra para soja, para arroz, para uva, para oliveiras, para hortifrutigranjeiros. Temos opções das mais diversas e nos mais diversos quadrantes. Quando a comunidade se apropria disso, ela começa a despertar. Nós temos que nos reinventar a partir do empreendedorismo, dos riscos a serem corridos. E aí não tem tamanho, pode ser o cachorro-quente do Braz ou o Complexo de Águas Termais do Amsterland.

Por: Marcel Neves - marcelneves@jornalaplateia.com - 12/08/2017 às 12:34

 

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