Jornal A Plateia - Livramento/RS. Notícia - Qual o destino da Coofitec?

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Qual o destino da Coofitec?

Com a compra da estrutura física do antigo Lanifício Thomaz Albornoz, pelo Grupo Righi, qual o destino da Cooperativa de Trabalho dos Profissionais da Fiação e Tecelagem de Sant’ Ana do Livramento (Coofitec)?

Para responder a essa pergunta é preciso adentrar a uma série de complexidades. Há muitas possibilidades, pelo menos uma probabilidade até agora e infinitas perspectivas. Certeza? Só uma. Ninguém quer o fechamento da Coofitec, pois isso representaria não apenas a desocupação de 50 postos de trabalho dos cooperados ou outros tantos de terceirizados. Seria, em caso de fechamento, o ocaso de uma cadeia produtiva: a da lã.
A Plateia produziu uma Reportagem Especial envolvendo esse contexto, cuja síntese é esta e, para a TV A Plateia, uma Reportagem Documentário que estará no ar nesta semana em www.tvaplateia.com.br

A compra

Antônio Righi, empresário conhecido e conceituado em Livramento e no Estado, confirmou a compra e disse que os trabalhadores da Coofitec terão 15 meses para deixar o lugar. O valor do negócio não foi divulgado, porém, há informação de que uma parte  do valor total estará sendo disponibilizada ao vendedor dentro em breve e, ao fim do prazo, quando da entrega da estrutura física (que ocupa praticamente 60% de um quarteirão entre as ruas Silveira Martins, Thomaz Albornoz e Antônio Fernandes da Cunha), o restante.

E a Coofitec?

Nesse ano e 3 meses há algumas questões a serem resolvidas por parte da diretoria da Coofitec e do Executivo.

O primeiro ponto se refere a local. Ou seja, para onde iria a Coofitec?
Há uma negociação recentemente iniciada com a Cobreal Sul (empresa que está em recuperação judicial e é aquisitora de toda a planta da antiga unidade frigorífica da Swift Armour). A confirmação foi feita no fim da tarde de sexta-feira pelo prefeito Solimar Charopen, o Ico, destacando que está sendo aguardada a realização de uma nova reunião com a diretoria e departamento jurídico da Cobreal Sul, a qual apresentará uma proposta. O mandatário disse que a empresa deve uma quantia significativa em tributos municipais e também em relação a taxas do Departamento de Água e Esgotos (DAE) e poderá vir daí a possibilidade de um novo local para a Coofitec.
“Estamos iniciando a negociação, já tivemos uma primeira reunião e vamos aguardar a proposta da diretoria da Cobreal Sul. Nossa marca é o diálogo e temos a certeza de que há muito boa vontade também da empresa” - referiu o prefeito.

Não é novidade que a Coofitec surgiu da necessidade. De trabalhar e sobreviver. Com o fim do Lanifício, trabalhadores que permaneceram 30 anos ou mais trabalhando para Thomaz Albornoz, se viram sem perspectiva por algum tempo. A Coofitec surgiu em 14 de outubro de 1996. Com essa possibilidade, promover a transformação da lã ovina in natura em tops de lã (fita de lã penteada, de fibras paralelizadas e descontaminadas, segundo o conceito científico). Mas não só isso. Ninguém sabe qual o segredo: se pelas máquinas ou pelos processos, ou ainda, pelas mãos de epecialistas que o tempo e a prática formaram, o fato é que nem mesmo no Uruguai há a lavagem, cardagem e acabamento tão ímpar quanto o da lã processada pela Coofitec.
A operação é complexa e envolve vários processos, segundo explicou o presidente da Coofitec, Edson Renato Jorge Silva, que está na segunda gestão frente à cooperativa. Renato, como é mais conhecido, tem nada menos do que 18 anos na Coofitec - cooperativa que tem 20 anos. “Aqui todos trabalhamos e não tem de presidente ou diretor, todos sabem fazer praticamente todos os procesos, somos mecânicos, eletricistas, fazemos a lavagem, operamos qualquer dos equipamentos, cumprindo com a prestação de serviço para nossos clientes, parceiros e também ofertando lã para o artesanato local e regional” - inicia Renato, que acompanhou a reportagem e explicou cada processo realizado dentro da gigantesca estrutura. A lã que chega direto do campo, logo após o período de esquila, passa por uma sequência de processos operacionais, indo da classificação por grau de finura e qualidade, triagem, desborde, sendo direcionada para lavagem a uma temperatura média de 70° Célsius, passa por uma secadora, é cardada, penteada, é remetida ao acabamento e, logo após, prensada.

A origem

A herança catalã e vasca originou uma época dourada em Sant’ Ana do Livramento,na figura de Thomaz Albornoz, empresário, gestor, progressista. Ele é o personagem chave do passado ancestral do beneficiamento de lã em âmbito local.

Como registro, vale resgatar que em 1908, logo no início do século XX, começava a grande escala de aproveitamento laneiro. Thomaz Albornoz já trabalhava, em seu armazém, como varejista. Passou a atacadista e, dali, estabeleceu barraca de lã - era o primórdio do futuro Lanifício. A I Guerra Mundial havia ocasionado a necessidade de lã em todo o Mundo.  Para que se tenha uma ideia, segundo informações de seus descendentes, a produção de lã de suas estâncias no Uruguai e no Brasil passava dos 500 mil quilos por ano. Nesse passado histórico, primeiro atuando como empresa importadora e exportadora, o Lanifício do Rio Grande do Sul Thomaz Albornoz  passa, em 1952, a beneficiar a lã. Agregou valor e alavancou o desenvolvimento a partir do produto do meio rural regional.  A ovinocultura laneira, embasada no Corriedale, Romney Marsh, Ideal, Merino, entre outras raças, tinha acentuado investimento, haja vista que o interesse em fornecer lã para o novo mercado que se consolidava era crescente.
Os anos 60, 70, 80, 90 passaram, vieram as sucessivas crises, recuperações; novas quedas, ações judiciais; retomadas no trabalho. O Lanifício faliu, sofreu interdição, recuperou-se parcialmente. Deixou de operar, voltou a operar parcialmente até que encerrou suas atividades.
Daqueles anos de progresso e desenvolvimento, de ganhar dinheiro com a lã, famílias se formaram, homens, trabalhando na empresa, criaram filhos e estes lá também atuaram. Pelo menos duas gerações, ingressando na terceira.
Dessa história rica, bonita, com suas nuances de valor, dificuldades, conquistas, chega-se ao presente, em que a estrutura é usada pela Coofitec.

Maquinário e equipamentos

A Cooperativa de Trabalho dos Profissionais da Fiação e Tecelagem (Coofitec), quando tiver que deixar a estrutura do Lanifício terá que suspender as operações de lavagem da lã. Entretanto, para isso, precisará já estar com outra estrutura pronta para operar. A química Ana Yebra, que é responsável pelas orientações ambientais, recorda que alguns anos atrás já havia sido pensado em retirar a Coofitec do local. É, inclusive, um objetivo da cooperativa, entretanto, as complexidades são várias.

A primeira delas diz respeito ao maquinário da área de lavagem. A lavanderia tem uma estrutura muito própria e será muito complexo removê-la. A partir dessa constatação, tudo vai depender da perspectiva de novo local, das parcerias e da potencialidade de investimento, por isso o trabalho não pode parar um minuto sequer. Até para capitalizar as futuras operações.
Há outros equipamentos que foram estruturados de forma a permitir rendimento de produção e somente com um investimento pesado seria possível realizar sua transferência de forma a retomar a operação rapidamente para não perder mercado. Isso em se considerando que o setor de lavanderia - a lavagem da lã - já estivesse operando.

Dependência

Os 53 cooperados associados da Coofitec há cerca de duas décadas arrendam a estrutura física dos antigos proprietários do Lanifício. A instalação fabril, com todo seu maquinário, é utilizada para prestação de serviços a terceiros, como barracas de lã da cidade e de municípios gaúchos que entregam a produção para classificação, lavagem, cardagem e elaboração de tops (matéria-prima destinada à produção de fios mais finos).
Além dos 53 pais de famílias, há também quem dependa diretamente da cooperativa, como mais de 150 artesãos de Livramento, Dom Pedrito, Alegrete, entre vários outros municípios da Campanha e Fronteira Oeste. Desnecessário dizer que a lã da Coofitec gera, pelas mãos habilidosas, xergões, cobertores, mantas e palas.

Laboratório e tratamento

A química Ana Yebra tem uma história de quase duas décadas com a Coofitec e é uma das tantas pessoas da comunidade que não deseja ver fechamento ou impedimentos nas operações da cooperativa. “Claro que sabemos que é preciso um novo local. Uma indústria desse tipo não pode operar no centro da cidade, mas temos uma excelente expectativa de parte do Executivo e da própria comunidade para que se tenha a disponibilidade de um novo local com estrutura mínima a fim de rapidamente manter a operacionalidade” - refere ela, destacando que tanto as análises laboratoriais quando os investimentos feitos no tratamento de águas e - inclusive gerando produção de humus - refletem o interesse em, ao mesmo tempo, oferecer um produto de qualidade na lã beneficiada, bem como realizar todos os procedimentos ambientais da forma como estabelece a legislação.

 

Por: Henrique Machado Bacchio - henriquebachio@jornalaplateia.com / Imagens e fotos: Elis Regina Cartaxo - 18/03/2017 às 9:48

 

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