Jornal A Plateia - Livramento/RS. Notícia - O braço forte e a mão amiga femininos

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O braço forte e a mão amiga femininos

Na quarta reportagem da série especial em alusão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado amanhã, destacamos a presença das mulheres no Exército, especialmente no 7º RCMec e na 2ª Bia AAAé

O ano de 2017 é simbólico para o Exército Brasileiro e para as mulheres do Brasil. Neste ano, entre os 406 novos alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), que entraram pelos portões, 32 jovens mulheres deram os passos iniciais na Carreira de Oficial da Linha Militar Bélica. Essa foi a primeira turma feminina a ingressar na EsPCEx; no futuro, elas serão oficiais de carreira na instituição. Mas um dos lemas atuais e mais populares do Exército, o “Braço forte, mão amiga”, já é levado a efeito por seu corpo feminino desde a Segunda Guerra Mundial, quando, em 1943, as mulheres ingressaram oficialmente na Força Terrestre.
Em Sant’Ana do Livramento, Giana Pereira da Silveira, Luciana Souza Pereira e Mariella Cabeda vivem, diariamente, a rotina do Exército, assim como outras colegas militares que também atuam, tanto no 7º Regimento de Cavalaria Mecanizada (7º RCMec), quanto na 2ª Bateria de Artilharia Antiaérea (2ª Bia AAAé). Giana, de 34 anos, e Luciana, com 32 anos, ambas santanenses, servem no 7º, enquanto Mariella, 36 anos, de Porto Alegre (RS), está vinculada à 2ª Bia AAAé. Giana e Mariella são dentistas, na posição de tenente, como oficiais temporários, respectivamente, desde 2013 e 2015. Luciana é Sargento, desde 2009, quando se formou, e atua no posto médico do 7º RCMec como auxiliar do Fundo de Saúde do Exército (FUSEx).
Nos quartéis da cidadenunca sentiram preconceito. “Os que estão abaixo de mim me respeitam muito. O mesmo respeito que eles têm por mim, eles têm pelos tenentes homens. Claro que devem estranhar um pouco ser comandados por uma mulher, mas, enfim, nunca senti nenhuma reclamação dos guris, é normal”, garante Mariella.
Luciana sentiu certa resistência apenas no começo da trajetória, na cidade de Dom Pedrito. “Em Dom Pedrito eu fui direto para a tropa. Lá senti uma resistência do segmento masculino em relação às mulheres, não sei se pela cidade. Aqui, no Regimento, acho muito mais tranquilo de lidar. Nunca tive grandes problemas, mas em Dom Pedrito acho que sofri certa resistência. Não sei se porque eu era a segunda mulher naquela unidade e aqui já faz mais tempo que tem mulheres. Aqui eu acho tranquilo”, afirma a Sargento.
Já a primeira experiência de Giana foi mais tranquila, percebendo até mesmo uma acolhida diferenciada em Itaqui, para onde foi designada, após sua seleção pelo Exército: “Quando servi em Itaqui era eu e mais uma Sargento de contabilidade, não era nem da saúde. Na saúde, eu era a única mulher. Mas, pelo contrário, quando cheguei lá, a felicidade deles de terem sido contemplados com uma dentista mulher, que fazia muitos anos que não existia, antes de mim só tinha tido uma, eles ficaram muito felizes. Segundo eles, o toque feminino na saúde é muito importante, inclusive pra sair de lá, foi bastante penoso conseguir, porque não queriam deixar eu sair pelo fato de terem gostado de ter uma mulher”, revela a Tenente Giana.

Incentivo

A entrada de mulheres para a Carreira de Oficial da Linha Militar Bélica, o que significa uma maior ocupação de espaço pelo sexo feminino, no Exército Brasileiro, é celebrada pelas militares. “Acho isso muito bom. A gente tem que ocupar mesmo, a gente é capaz. A mulher, inclusive, quando é enquadrada, ela vai, e não tem medo. Claro, fisicamente somos mais delicadas e isso é fato. Vai dar um tiro com fuzil e é óbvio que a estrutura da mulher acaba sendo menor. Mas, adequando algumas coisas, não tem nenhuma contraindicação de a mulher entrar para as Forças Armadas e ir a campo mesmo, acho que tem que ser igual mesmo. Vejo isso com bons olhos”, pensa a Tenente Mariella.
Giana vê como positiva essa chegada das mulheres como postulantes a oficiais, na linha bélica, ainda que possam encontrar eventuais dificuldades: “Acho super válido, acho que a militar combatente vai ser bem interessante. No Uruguai já existe, há bastante tempo, soldados mulheres, aqui ainda não. O início vai ser esse, como Oficial. A gente diz que não somos o sexo frágil, mas acho que suportamos um pouco menos. Então acho que vai ser uma adaptação. Acho que a Força tinha que realmente se adaptar a ter mulheres entrando, mas acho que não vai ser uma transição muito tranquila, acho que elas vão sofrer um pouquinho... Elas vão estranhar um pouquinho. Admiro horrores a força delas nesse sentido”, acredita Giana.
A ocupação de posições de comando, na Força Terrestre, pode se tornar, com o tempo, comum entre as mulheres que passam a entrar, desde agora, na EsPCEx, e serão oficiais de carreira. “Acho que a mulher tem absoluta condição de ser comandante, é uma responsabilidade imensa, mas que hoje existem mulheres à frente de multinacionais, existem mulheres à frente de faculdades, enfim, vai ser mais uma posição que a mulher vai ocupar dentre tantas que já está ocupando”, diz Giana.
Um potencial problema que poderia ser o do convívio da mulher com homens em uma instituição, historicamente, vinculada à força masculina, parece não ter espaço, na atualidade. Mariella Cabeda, por exemplo, descarta essa hipótese: “Pra mim é muito tranquilo. Tratada, claro, com um pouco mais de delicadeza, por uma questão de educação mesmo, mas sempre muito respeitada. Claro, às vezes, temos que nos impor um pouco. No ambiente militar, não se vai ficar o tempo inteiro dando uma de ‘mulherzinha’, tipo reclamando. Tem que se ter certo comportamento para enfrentar certas coisas que aqui dentro do Exército tem, como uma formatura embaixo de sol a 35º”, informa a Tenente.
Mariella, da 2ª Bia AAAé, garante que benefícios, como o crescimento pessoal, fazem valer a pena a carreira militar, ainda que, no caso dela, temporária: “Quem entra para o Exército sai com uma outra visão, além de se tornar um cidadão mais correto, que se segue as coisas direito, dentro da lei”, afirma.

Por: Marcel Neves - marcelneves@jornalaplateia.com - 07/03/2017 às 9:21

 

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